
Concreto e asfalto servem de base para pista de atletismo, mas não se comportam igual. O concreto armado é rígido e pede solo estável, sem aterro, e juntas bem planejadas. O asfalto CBUQ é contínuo e rápido de executar, mas só vai bem onde não há umidade subindo do solo. Antes dos dois vêm compactação, caimento de até 1% para dentro e drenagem dimensionada pela chuva da região.
A base para pista de atletismo é o que fica entre o solo e o revestimento sintético, e é ela que decide se a pista vai continuar plana, seca e sem trincas daqui a dez anos. Este guia trata só dessa parte da obra: o preparo do terreno, a drenagem e a escolha entre contrapiso de concreto e de asfalto.
Neste guia · 6 seções
1. Por que a base para pista de atletismo decide a vida do piso
O revestimento de uma pista tem 13 mm de espessura, segundo a ficha técnica da Recoma para as três tecnologias certificadas. Uma camada tão fina copia o que existe embaixo dela. Se o contrapiso afunda num canto, a raia afunda junto; se ele trinca, a trinca aparece na superfície algumas estações depois.
Por isso o texto técnico que a Recoma publicou em 2021 abre com a frase de que a qualidade de nenhuma pista é melhor que a da sua base. Segurança, regularidade da corrida e durabilidade dependem dela tanto quanto da borracha que o atleta pisa.
A certificação também passa por aqui. As regras técnicas da World Athletics limitam a inclinação lateral a 1 por 100 e a inclinação no sentido da corrida a 1 por 1.000. O sintético não corrige esses números: a base já precisa sair da obra dentro deles. As três tecnologias de revestimento e as classes de certificação estão no guia completo da pista oficial de atletismo.
2. O que vem antes do contrapiso: terreno, compactação e caimento
Concreto e asfalto só entram depois de quatro etapas. O texto técnico da Recoma as descreve nesta ordem:
- Locação da pista no terreno, com o desenho das retas e das curvas.
- Remoção da camada vegetal e levantamento topográfico.
- Terraplenagem, já com o caimento que a pista final vai ter.
- Compactação do solo a 95% do Proctor Normal, segundo o mesmo texto, conferida em ensaio.
O caimento nasce na terraplenagem. Segundo a Recoma, a pista cai 1% do perímetro externo para o interno, e a World Athletics aceita no máximo 1 por 100 nesse sentido. Acertar essa inclinação no solo sai mais barato do que tentar compensá-la com espessura de concreto ou de asfalto.
Aterro pede atenção redobrada. Solo trazido de fora e mal compactado continua assentando por anos, e o recalque aparece na base como afundamento ou trinca. É o ponto em que a escolha entre concreto e asfalto começa a ser feita, antes mesmo de se falar em pavimento.
3. Drenagem: para onde vai a água da chuva
Uma pista oficial é uma área grande e impermeável. Segundo o texto da Recoma de 2021, a superfície no padrão oficial passa de 6.275 m², e toda a chuva que cai nela escorre para o lado de dentro, puxada pelo caimento.
Ali, no perímetro interno, ficam as canaletas. Segundo a Recoma, elas são dimensionadas pelo histórico de chuvas da região e ligadas aos drenos do campo central, que podem seguir o desenho em espinha de peixe. Canaleta subdimensionada transborda na raia 1 na primeira chuva forte, e água parada sobre o sintético vira sujeira, limo e desgaste.
A água que vem de fora também conta. Terreno mais alto ao redor da pista manda enxurrada para o perímetro externo, e é essa água que ataca o contrapiso pela borda e por baixo. O projeto precisa de uma barreira ou de uma calha desse lado antes de pensar no revestimento.
4. Concreto ou asfalto na base para pista de atletismo: o que muda
Para o revestimento, os dois servem. Segundo a página de produto da Recoma, as pistas moldadas in-loco, pré-fabricadas e híbridas são aplicadas sobre contrapiso de concreto ou de asfalto. A diferença está no comportamento de cada base ao longo dos anos e nas condições do terreno que cada uma tolera.
| Critério | Concreto armado | Asfalto (CBUQ) |
|---|---|---|
| Tipo de pavimento | Rígido: distribui a carga numa placa | Flexível: acompanha o que o solo faz embaixo |
| Solo que pede | Estável, compactado, sem aterro que possa ceder, segundo a Recoma | Firme e seco; sente mais os esforços do solo, segundo a Recoma |
| Umidade | Pede ambiente sem excesso de água escorrendo pelo perímetro externo | Só sem umidade subindo do solo, segundo a Recoma |
| Juntas | Juntas de dilatação em pontos planejados do percurso | Superfície contínua, sem juntas |
| Como se executa | Régua vibratória, acabadora de pás giratórias e fibra no traço | Concreto betuminoso usinado a quente, espalhado e compactado |
| Ponto de atenção | Trinca de recalque ou de retração aparece no sintético | Deformação e bolhas quando há água por baixo |
Contrapiso de concreto
O texto técnico da Recoma recomenda o concreto armado em terreno estável, com o solo compactado a 95% do Proctor Normal e sem aterro que possa ceder com o tempo. Nessas condições ele entrega a superfície mais regular: o nivelamento é feito com régua vibratória, o acabamento com acabadora de pás giratórias, e a fibra misturada ao concreto aumenta a resistência a fissuras.
A contrapartida está nas juntas. Placa de concreto se movimenta com a temperatura e, sem junta, trinca onde quer. As juntas precisam ser planejadas no projeto e tratadas antes do revestimento, para não marcarem a superfície da pista.
Contrapiso de asfalto (CBUQ)
O CBUQ, concreto betuminoso usinado a quente, é a base que a Recoma aponta como a melhor escolha em regiões e terrenos sem umidade ascendente. Como ele é flexível, a umidade e os movimentos do solo chegam até a superfície com mais facilidade, e a água presa sob a resina acaba formando bolhas.
Onde existe usina de asfalto por perto e o terreno é seco, a execução costuma ser rápida e a superfície sai contínua. O revestimento só entra com o asfalto pronto para recebê-lo; o prazo de espera é dado pelo fabricante do sintético.
5. Como escolher entre os dois na sua obra
A pergunta do título tem resposta curta: não, concreto e asfalto não dão no mesmo. O que define a escolha é o lugar da obra. O texto da Recoma lista os critérios, que viram estas perguntas para o projeto:
- Há usina de asfalto, concreteira e equipamento disponíveis perto da obra?
- Caminhão e máquina chegam até a pista sem rodar sobre o que já foi feito?
- O solo é natural e firme, ou há aterro recente?
- Existe sinal de umidade subindo do solo, como lençol alto ou área de várzea?
- A tecnologia de revestimento escolhida é compatível com a base prevista?
Terreno com aterro e lençol alto pede estudo de solo antes de qualquer decisão. Terreno seco com usina perto puxa para o asfalto. Solo estável com controle de água no perímetro favorece o concreto. A própria Recoma recomenda que a base seja executada, ou ao menos supervisionada, por quem já fez pistas dentro dos padrões da World Athletics.
6. Reforma: dá para aproveitar a base de uma pista antiga?
Muitas obras de pista começam com uma pista que já existe. Antes de orçar o revestimento novo, vale avaliar o que está embaixo: trincas que voltam no mesmo lugar, poças depois da chuva, afundamentos e bolhas indicam problema de base ou de drenagem.
Nesses casos, trocar só o sintético repete o defeito. A moldada in-loco e a híbrida aceitam re-topping, a recomposição da camada superior, segundo a página de produto da Recoma, mas o re-topping cuida do desgaste da superfície e não conserta a base. Quando a base está boa, a reforma fica no revestimento; quando não está, a obra volta ao contrapiso e, às vezes, à drenagem.
Para comparar as tecnologias que vão sobre a base, a página de pistas de atletismo da Recoma traz a composição de cada uma. Como os pisos chegaram até aqui está no guia de história e evolução dos pisos para pistas de atletismo.
Perguntas frequentes
Qual é melhor para base de pista de atletismo, concreto ou asfalto?
Depende do terreno. Segundo o texto técnico da Recoma, o concreto armado pede solo estável e sem aterro; o asfalto CBUQ é a melhor escolha onde não há umidade subindo do solo. A disponibilidade de usina e de concreteira perto da obra também pesa.
Pista pré-fabricada pode ser colada sobre asfalto?
Sim. Segundo a página de produto da Recoma, as mantas pré-fabricadas são fixadas ao contrapiso de concreto ou de asfalto com adesivo de poliuretano. O mesmo vale para a moldada in-loco e a híbrida.
Qual deve ser o caimento da base da pista?
As regras técnicas da World Athletics admitem até 1 por 100 de inclinação lateral, caindo para a borda interna, e até 1 por 1.000 no sentido da corrida. O caimento é feito na terraplenagem e conferido no contrapiso.
Dá para trocar só o piso sintético de uma pista antiga?
Só se a base estiver boa. Trincas recorrentes, poças e bolhas indicam problema de base ou de drenagem, que o revestimento novo não resolve. A avaliação da base vem antes do orçamento do sintético.
Vai orçar uma pista? Fale com a engenharia
Diga se a pista é oficial ou de lazer, o número de raias e a base que já existe. A equipe técnica indica a tecnologia e responde com a proposta.

Nome, cargo e foto de quem assina: a confirmar (Q2)
Referências
- World Athletics. Competition and Technical Rules, edição 2026, TR 14.5 (inclinações lateral e no sentido da corrida). Conferido em 21/10/2026.
- World Athletics. Track and Field Facilities Manual, edição 2019 (capítulos 1 a 3) e edição 2008 (capítulos 4 a 8), as listadas na página de documentos técnicos da entidade em 21/10/2026.
- Recoma. Base para pistas de atletismo: concreto ou asfalto? É tudo igual? Blog, fevereiro de 2021.
- Recoma. A importância do piso oficial no mundo do esporte. Blog, março de 2024.
- Recoma. Pistas de atletismo Recoma certificadas. Blog, fevereiro de 2025.
- Recoma. Página de pistas de atletismo (tecnologias e contrapiso de concreto ou asfalto), lida em 21 out 2026.